Banner Alto Página

Um Algarve de Memórias: As Pessoas Árvore

Solta-mente
Tools
Typography

Se nos afastarmos fisicamente daquele Algarve atulhado de chapéus-de-sol, onde parece que tudo está em leilão, ou à venda, encontramos árvores, serra, memórias, terra e um infinito silêncio que nem o vento, ao passar, desfaz.

Algumas árvores são imponentes e frondosas, outras estão curvadas sob o peso das suas memórias, de raízes à mostra. São-no de tal modo, que acabo por não conseguir perceber se é a terra barrenta que as prende, se são elas que sulcam pelas entranhas da terra. Infinitamente.

O que sei é que algumas pessoas são como árvores. Têm raízes fincadas no chão. Fazem parte do todo. Têm na memória a passagem dos anos, o sol, as chuvas, as outras pessoas e todas as outras árvores. Umas mais, outras menos curvadas, ficam de pé por não saber ser de outro modo.

Arrependo-me de não lhe ter perguntado o nome. Passeava sozinha. O cabelo: grisalho, cuidadosamente preso por ganchinhos pretos. Sorriso fácil. Apoiava o pequeno corpo magro numa bengala de madeira escura, enquanto caminhava por Querença sob o sol da uma da tarde. Parou sorrindo, como quem tem em mãos todo o tempo do mundo para contemplar. Responde-nos com “Boa tarde” e aquele sorriso.

Queríamos saber qual o restaurante aberto mais próximo. Fez questão de nos acompanhar até lá. O discurso: coerente, lúcido, fantástico. A narrativa mais interessante que podia haver: a memória. Autêntica.

Tinha muita pena da sua terrinha, outrora tão importante, agora abandonada pela gente nova. “Somos todos velhos. Aquela casa ali era de um grande homem da terra. Mesmo importante. Faleceu. O filho faleceu depois. O neto também. Agora é de outro neto. Às vezes vem cá.”

“Não ande neste sol por nossa causa!”. Afastou os nossos protestos com a bengala. Diz-nos que anda todos os dias. É o passeio dela e parar… é morrer. “Sou igualzinha à minha mãe. Também ela andava todos os dias. Era tão saudável que quando se aborreceu de estar viva, parou de comer para poder morrer. Tinha já noventa e dois. Aborreceu-se!”. Conta-nos aquilo a sorrir, como quem encolhe os ombros. Tento disfarçar o desalento que as palavras me causaram. Aborreceu-se de viver?

Diz-nos que a escola ainda vai entretendo algumas crianças. Mas depois saem para estudar e fazem como os outros: não voltam. Encaminha-nos até ao restaurante. Recusa o convite para almoçar connosco. Declara que já não é de comidas, a rir. A declaração arrepia-me, por motivos óbvios. Depois, diz que já almoçou. E ri-se mais. “É uma vida!”

Tenho pena de não ter perguntado ao nome à amiga que fizemos em Querença. Passeava sozinha. E lá arrepelou caminho para casa. Sozinha. Apoiando-se na bengala, mas com algo feliz nos movimentos. Talvez na minha imaginação apenas.

O que sei é que algumas pessoas são como árvores. Algumas árvores são imponentes e frondosas, outras estão curvadas sob o peso das suas memórias, raízes à mostra. Algumas pessoas também. Umas mais, outras menos curvadas, ficam de pé pois não sabem ser de outro modo. E assim, raízes enormes, até parecem gozar de uma existência feliz, até que se aborreçam de sulcar a terra, ou de que a terra as prenda.

Selma NunesPessoas Arvore

BLOG COMMENTS POWERED BY DISQUS