"Mete medo três vezes"

Solta-mente
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Tenho saudades de escrever crónicas com sabor a sal. Com o cheiro da areia meio molhada que apita estridente enquanto torrões semelhantes a açúcar amarelo se formam debaixo dos pés.

Contudo, nestes últimos tempos, olho a Ria e vejo nela pouca doçura, poucos torrões… e se há sabor a sal, este provém das lágrimas. Lágrimas humanas.

Frutos de um mar de frustração, desespero e de uma raiva emparedada pronta a saltar a qualquer momento. Ao mínimo sinal de vento. Tenho receio. Não costumo ter medo de escrever, e desta feita, tenho.

Os pés não estão feridos das simples topadas em conchas. São os corpos todos em ferida de circulação nervosa invisível. É por dentro das pessoas que estão esta dor e ansiedade incalculáveis. Cheira a desânimo e a luta. Àquela calma que dizem anteceder as tempestades.

E a luta é na areia, por areia. É desigual e suja. Só não receia quem nunca viu esses palcos.

E mete medo três vezes. Porque a cara da injustiça é mais medonha que os braços armados que, ainda que obrigados, a sustenta. Porque a injustiça se faz proteger pelo braço da justiça. Aquela a que se só se tem acesso nos corredores do dinheiro e do poder.

E se isto ainda não cheira a cólera e a despotismo, dou a terceira razão: tenho medo do peso das palavras. Porque mais nada tenho que estas palavras e as duas mãos que as escrevem. E não chega, nem ajuda e eu sei. Que fique claro que não se pode cobrar à autora mais do que estas palavras. Escrevo estas em consciência que não bastam.

Lamento profundamente e sei que nas cabeças, quando estão em desalinho, isso não chega, porque nada chega, na verdade. E temo pelas pessoas, pelas injustiças e pelas palavras. Por isso, escrevo a custo e a medo. Porque é uma avalanche que nos difama a todos, numa bola de neve que vai cegando e injustiçando em teia. É preciso coragem. É preciso manter a clareza de raciocínio.

Selma NunesCronica Selma Nunes

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