É necessário contrariar a tendência da auto-desculpa

Solta-mente
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Decidi aguardar que passassem as “Festas”. Aguardei, porque na realidade tudo o que tinha para escrever estava rebuscado, velho, bafiento, e cheirava aos fantasmas dos “Natais passados”.

Porque tudo o que eu poderia escrever seria sempre pouco original. E finalmente, porque estava vazia. Não triste, apenas vazia. Até tentei duas ou três vezes, mas só reclamar, sem virar as frases de maneira irónica, não é o meu estilo. Fiquei constrangida. Um pouco tímida. Só isso.

Apesar desses impedimentos, todos eles meus, no outro dia dei por mim a pensar em como somos assaltados sem piedade pela palavra “só”. Usamos o “só” para fazer escorregar pela goela de pessoas inocentes uma qualquer desculpa esfarrapada. Para nos justificarmos de qualquer coisa. Às vezes a nós mesmos, mais que aos outros. Nas ruas, nos becos, na estrada, nos supermercados e até em pensamento. “Estava só a…”, “Eu só ia…”, “era só…”

A dita palavra é já um mau começo. Vejamos: “Vim aqui escrever esta crónica só para assegurar…”. Assegurar o quê? Que não me calo, apesar do silêncio dos últimos tempos? Só para avisar que os ilhéus andaram a limpar as ilhas da substância gordurosa que apareceu à tona que ninguém sabe o que é? Só para sublinhar que os desequilíbrios que assaltam a Ria Formosa não são provocados obviamente pelas casas das pessoas, como é óbvio, desde sempre? Para quê vir aqui só dizer isso? Toda a gente sabe. Receio é quem finge que não sabe.

Então calei-me e fiquei só a pensar em como tudo o que começa com “Só” nos primeiros momentos da frase, já começa mal. Exemplo: fila de supermercado. Se alguém nos olha e diz… “era só”… já nos tramou. Vai passar-nos à frente. Na estrada “eu só”… é mau sinal… já fez asneira. “Eu só”, ou “É só” devia ser encarado como um aviso meteorológico forte, um desequilíbrio da ordem natural do universo. Devia vir com alerta, um sinal de sirene. Sinal que alguém que começa logo a querer ser exceção à regra, de início… e atira-nos com o “só” a medo, medo fingido, que é quando custa mais dizer que não.

Assim, sabendo de que maneira cobarde começa esta crónica, só vim assegurar que não parei de escrever. Só vim avisar que continuarei a reclamar… e já agora, desejar a toda a gente que tem pachorra para ler estes desatinos… um 2017 cheio de conquistas e com menos desculpas. Há “só” que não devemos permitir. Não se permitam alguns, para contrariar a tendência. Era só isso.

Selma Nunes

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