Era uma vez uma praia roubada que se recusava a sê-lo

Solta-mente
Typography

Fizeram-no naturalmente, espraiando ao longo de 60km de costa, os seus corpos nus, ardentes, como num quadro do Tavares, magníficos, femininos, despojados, livres, fogosos, numa região que já era quente. Ficaram assim em dunas para cima como seios. Geraram, claro está, vida. A vida atrai vida.

Deram-lhes nomes próprios. Nome de família: Ria Formosa. Lá formosas sempre foram. E tudo o que tem formosura desperta a atenção. Rapidamente as irmãs se tornaram alvos de cobiça, desejos, loucura. Isso poderia ser poético se não saísse do quadro. Mas saiu, o que deu azo à promiscuidade que se segue.

A comunhão da areia com o sal do mar deu origem a muitas espécies diferentes. Desse casamento nasceram também os ilhéus. Seres humanos com areia nos cabelos e vento de levante nos corações.

Contudo, as modas mudaram. O que era coisa de rico passou a ser piroso e o que era vida difícil de pobre passou a ser chique. Desequilibrou-se tudo e quem pagou foi a amêijoa e o mexilhão.

No meio deste “swing” surgiram os moralistas. Queriam meter as irmãs todas no convento para que ninguém lhes tocasse – ignorando todos os passos de dança de uma nova música – o desenvolvimento sustentável (que prevê coesão social, justiça social, qualidade, bem estar, etc.). Assim, sem ensaiar os passos, ou chegar a falas com as irmãs, se burocratizou a coisa para esterilizar as manas de vez. O resto já se sabe.

Não auscultar as comunidades locais não é desenvolvimento sustentável. (E não vale fingir!). Também não é ambientalismo. É fundamentalismo.

Persistir no erro e tirar areias de onde não se deve fazendo com que uma praia com mais de 6kms de extensão fique quase sem areal é “engenheirismo vaidoso”. E assim lá se foi a bandeira azul da Culatra.

Hipotecar a pesca tradicional. Apostar na aquacultura sem controlo (oportunidades a grupos económicos estrangeiros!), fazer contratos de exploração de combustíveis fósseis… ultrapassa todo o fundamentalismo e roça o proxenetismo. É destruir o que se jura proteger. É atirar areia aos olhos já areados de todos nós, ilhéus e algarvios. É colocar as irmãs à venda. É transformar este conto numa história que não cabe em nenhum quadro – nem desenvolve, nem sustenta e decididamente deixou de ser arte.

Gostava de escrever “Fim”, mas a história ainda vai a meio. O estatuto jurídico e administrativo é uma miragem num deserto – e bolsos sequiosos parecem ter encontrado um oásis. Assim, terei de escrever “continua”, pois, a “luta continua” e parece não ter fim à vista, só mar.

Selma Nunes

BLOG COMMENTS POWERED BY DISQUS