Crónica de uma manhã perfeita

Solta-mente
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Água e ar sem arrepios ou estranhezas. A diferença é que um é a mimese líquida do outro, temperaturas iguais. Simples, mas que inunda de prazer qualquer corpo cansado de cidade, trabalho e pessoas.

Sigo pensando em tudo e em nada, simplesmente andando pela areia rija, molhada, deliciosa sob os meus pés matinalmente descalços e livres, notando que a força da água apagara as mossas deixadas pelos humanos e que no seu lugar deixara pequenas cicatrizes de passagem. “Por aqui passei com alguma correnteza, por aqui arrastei pedrinhas e conchinhas.” Por aqui, penso, parece que sou a primeira a passar hoje. Sei que não, mas a ideia percorre-me deliciosamente pela imaginação fértil, em frenesi. Ao fundo, no horizonte, os barcos da conquilha. Alguns homens na mesma arte, mas a pé, de água pela cintura, num esforço derradeiro e musculado para ganhar a vida.

Assentei arraial numa pequena barreira de areia. Com abstração infantil, e espírito missionário do mesmo tom, resolvi tocar em todos os pequenos calhaus que encontrava. Pretos, brancos, rosa, manchados, multicolores, esverdeados com risca. Encontrei uma concha enorme, como não via há muito tempo. Mergulhei muitas vezes trazendo pedrinhas à superfície. Vi um peixe-agulha a nadar dentro de uma onda por rebentar. Redobrei cuidados, mas não parei.

Regressei pelo mesmo caminho. Junto à passadeira já estavam os banhistas como costume, raquetes, bolas, pranchas, crianças e os barulhos costumeiros dos verões junto à praia. Com risos. Muitos risos.

De volta à aldeia trouxe a concha e algumas pedrinhas interessantes. Senti-as minhas, por as ter resgatado ao mar. Se calhar foi rapto. Sou raptora de calhaus e conchas. Estou a tentar enganar quem? O sol reapareceu entre as nuvens e com ele aquele calor intenso que arde na pele e cansa os pulmões.

Uma manhã que soube a verdade. Uma manhã que na cidade e nos trabalhos seria impossível. Uma manhã com as personagens da imaginação vestidas e não as da obrigação. A manhã mais perfeita. Quando se gosta de só estar e se tem a si próprio como boa companhia. Eu só estive ali sozinha. Foi perfeita, a minha manhã prateada.

Selma Nunes

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