Por mais ouriços que lhes metam debaixo dos pés

Solta-mente
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O salitre fez misteriosos regatos minerais nas minhas pernas arranhadas pela marisma. Lá, andei de joelhos esfolados a correr atrás dos papagaios de papel, sobrevivendo a aparatosas quedas e inspecionando as conchas coloridas, ouriços fossilizados e canas secas que apanhava pelo caminho. A água salgada ardia nos joelhos, mas era completamente impensável não ir, não molhar, não entrar na água.

Há dores que se ignoram em prol do que está certo.

Venho agora descobrir que uma parte da marisma que me arranhava as pernas é uma planta gourmet chamada salicórnia, substituta do sal para hipertensos, utilizada como pickles, como guarnição, em suma, como iguaria, da nossa Dieta Mediterrânica.

Os esgotos desaguam para a Ria e batem de mansinho nas plantas gourmet, nos bivalves e em todos os seres aquáticos que estão sempre de molho. Não obstante, o poder está virado para as paredes como um mau menino de castigo na escola.

Que me perdoe o Platão de lhe usar a alegoria, mas algumas entidades ainda não tiraram da cabeça o tal chapéu feito de jornal, estão perdidas nas suas próprias sombras e querem a todo o custo derrubar paredes, sem perceber que a insistência faz delas paredes a derrubar.

Não sabem que a intransigência de um monólogo que se queria diálogo faz levantar ondas de sueste na costa, elevando-se a massa de água até rebentar em jatos de espuma branca cheios de força e essas ondas, sim, levam tudo, areia, paus, pedras, com um rugido capaz de calar monólogos sem sal.

As gentes da areia têm regatos de sal no corpo, vivem de molho como a salicórnia e entram na água sem medo, porque há dores que se ignoram em prol do que está certo, por mais ouriços que lhes metam debaixo dos pés.

As gaivotas, essas, nunca param de ralhar e às vezes parece que se riem, mas nunca enquanto planam, porque planar é uma coisa tão séria como o levante.

Selma Nunes

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