Solta-Mente: Não em meu nome!

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Nos filmes e séries distópicas de ficção científica que adoro (tenho essa fraqueza), as guerras, desastres e lutas são sempre perpetrados em nome de um povo, fé, nação, facção e toda a gente perde. Um sentimento de pertença que deve ser inspirador para quem vive dentro dele e geralmente devastador para quem está no outro lado. Porque o culto do “nós” ao extremo pressupõe a demonização do “outro”, num jogo macabro de identidade e diferença. É esse o “script” de quase tudo o que é ficção. 

Mesmo se formos espreitar alguns poderosos membros do cânone: “Romeu e Julieta” foi escrito em cima do pressuposto do ódio entre duas famílias – “eles” e os “outros” – e não deu bom resultado. O nosso Camilo Castelo Branco também perdeu de amores dois elementos de famílias que não se podiam ver – e correu mal para todos. Vejo estas coisas como um grito de alerta para as consequências do extremismo, em vez da morte certa a quem desafia as regras. Mais saudável, decerto, mas a nossa sociedade tem dado sinais de doença na normalização do extremo. E isso está errado.

Nos últimos tempos, pessoas com uma visão deturpada e doentia de “nós” e os “outros”, baseada em cor da pele e noções nacionalistas (importadas da Alemanha nazi, o que torna tudo ainda mais curioso) sentem impunidade suficiente para se juntar (importando a máscara branca do KKK dos E.U.A.) contra um edifício anti-racista. Isto não é patriotismo. É crime. Feito por pessoas de extrema direita nacionalista. Crime!

Dias depois, são formuladas ameaças a cidadãos portugueses com cargos de destaque na vida pública e na luta anti-racista. Racismo é crime! Ameaçar a vida de outrem, também! Coacção idem! Mas que conversa vem a ser esta? O sentimento de impunidade de quem pensa que pode fazer isto, com ou sem cara coberta tem de ser combatido. Sou portuguesa e gosto de o ser. Temos um país lindo, uma cultura riquíssima e vamos continuar a ter, mas temos de pensar e falar nisto seriamente. 

Como portuguesa: estes criminosos e criminosas não defendem o meu país, a minha pátria, pelo contrário. O facto de acharem que sim é um delírio macabro. São como uma seita, com sentimentos de pertença e de identidade deturpados. Já encontraram o “outro” para antagonizar, e no meio em que se movem sentem-se seguros e seguras para ameaçar pessoas, tal qual uma organização criminosa/ mafiosa. Não gosto de saber que estão à solta. O lugar do crime não é na cadeia? Pois comecem por aí mesmo. O assunto não pode ser, mais uma vez, relativizado. É preciso falar nisto. É preciso tomar atenção ao que está a acontecer. Não deixem este vírus propagar-se. Esta identidade que arranjaram é falsa, importada, violenta e facciosa. O meu país tem muitas cores bonitas, nenhuma é superior às outras. Humanize-se quem acha o contrário.

Selma NunesSoltaMenteImpunidade

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