Banner Alto Página

Solta-Mente: As Realidades, as Escalas os Medos e o “Normal”

Solta-mente
Tools
Typography

Choveu há dias e ninguém disse nada. O céu caiu todo durante a noite e grande parte da manhã. Poucos repararam e quem reparou não teve fôlego ou vontade de o fazer notar. Relâmpagos, trovões e um sem fim de água de chuva, que fazia falta, foi-nos doada, enquanto estávamos agarrados às nossas modernices: aos nossos telemóveis, aos nossos Netflixes e à nossa condição humana, presente e futura.

Ninguém quis saber da “Irene”, apenas anunciada em nota de rodapé, que é onde se metem as curiosidades longínquas. As árvores sacudiam-se de vento, folhas molhadas da chuva, respingando de fúria natural, ensopando, soprando, iluminando e desabando e ninguém foi à janela para declarar o óbvio nas redes sociais, e isso sim, é que seria normal.

Penso que usamos um filtro para a realidade e que a mesma passa de pormenor a facto após medida em escala de comparação, pela grandeza. Neste momento, o fulgor de “Irene” é pequeno em comparação com a disrupção da nossa dita “normalidade”, essa sim, um cenário dantesco cheio de significantes e significados. Não nos falta a “frente da batalha” e outras expressões alusivas a um cenário de guerra.

Dei por mim a medir esta versão quase pós-apocalíptica de nós mesmos e juro que quase desejei que alguém dissesse o óbvio como declaração e com respectiva prova fotográfica: “Chove a potes”. Isso trar-me-ia um lugar comum confortável e palpável. Nada vi.

Distinguimos definitivamente as realidades em escala de comparação. E quem esteja a estudar os efeitos disto, pode começar por aí. A escala de comparação em causa está muito alta. Dificilmente outra coisa será notícia. Enquanto isso, lá fora, as ruas desertas ficaram molhadas. Tenho a certeza de que houve estragos.

Não estou segura de que não estejamos já fora de nós, por ter sido ultrapassada a escala da normalidade. Sei que foi difícil convencer-nos a ficar em casa, de vez. Sinto que será igualmente difícil convencer-nos do contrário. Serão obviamente necessários muitos discursos presidenciais a exaltar a coragem portuguesa. Provas disso, são os abaixo assinados contra tudo o que seja indício de ajuntamento civil ou oficial. Prova disso, é o olhar de pânico que se troca com a vizinha no corredor, no supermercado, ou noutro sítio qualquer, medindo as distâncias.

Li num livro do Zink e terei de lhe dar razão. O medo instala-se como quem instala um serviço de telecomunicações. O que não me lembro de ele ter escrito, mas que me parece igualmente verdade e adaptável à nova realidade é que o mesmo vem com período de fidelização. Mas… repararam na “Irene”, aí há dias, certo? Não sonhei?

Selma Nunes

RealidadesEscalas

BLOG COMMENTS POWERED BY DISQUS