O Tempo que se Estende Pelo Rio

Solta-mente
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Afastada do tempo e das abomináveis ditaduras relojoeiras. Respirei. Juntei-me, sem saber, a todos aqueles que nunca têm tempo e que por isso fogem para poder tê-lo. Turista por dois dias. Chamam-se escapadinhas. Nome apropriado.

Não fui para fugir de mim, ou para me reencontrar depois de ter mudado de posição geográfica. Nada disso. Fugi para ter tempo. Para ter tempo não podia estar em casa, ou deixava de o ter facilmente. E como resolução final… abandonei o telemóvel num canto do único canto do Algarve onde me pareceu que seria possível relaxar em época alta, sem a enchente turística a que estou habituada e com a qual trabalho. Precisava diferente. Paisagem outra.

Descansei a vista nas fantásticas margens do Rio Guadiana. Os pequenos veleiros e iates balouçavam preguiçosamente enquanto o nosso barco abandonava Alcoutim subindo o rio até ao Pomarão, já na freguesia de Mértola. Os peixes saltavam ao lado do nosso barco sem proa e os guias tiveram sensibilidade para perceber que este passeio sem vozes seria ainda mais perfeito sem que lhes disséssemos.

Postos da guarda, alguns reabilitados, provavelmente para habitação ou turismo, ainda perscrutam o rio em pontos estratégicos. Contudo, para mim é igualmente impressionante a calmaria pacífica dos troncos e juncos, inclinados para beber das águas. O verde. A vegetação até perder de vista e a quantidade de ar que se tenta absorver quando se vem de outras paragens. E as duas cabras tresmalhadas (uma branca, outra preta) que se afastaram do rebanho porque podiam. Não consegui deixar de imaginar os contrabandistas… e provavelmente um invasor espanhol à espreita, em outros tempos.

Afastei-me do tempo quando estava sem tempo e descobri um tempo grande, maior e desfrutável. Percebi que o tempo é tão meu quanto o daquele rio, provavelmente o de todos os rios e rias de todos os lugares. O nosso tempo é nosso. Quando deixamos que nos tirem isso, deixamos que nos tirem o ar.

Deixo como sugestão a bonita vila de Alcoutim e aquela vista de rio maravilhosa que nos faz tirar fotos com os olhos antes de vir para casa. Sempre que for preciso lembrar que o tempo que passa também é um pouco nosso. Sempre que for preciso ter tempo para fugir do tempo rápido. Antes que esta modernidade nos coma vivos.

A voz na na minha cabeça cantava “(…) O tempo é como um rio / que caminha para o mar / passa o vento e o desespero / passa como passa a agonia / passa a noite, passa o dia / mesmo o dia derradeiro (..)”.

Selma NunesTempoRio

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