O fascínio pelo caos e a habituação à desgraça

Solta-mente
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A chuva e o vento fortes têm fustigado o dorso das árvores. Galhos sem folhas, levantados em rendição, uma e outra vez iluminados pelos carros que passam. Os minitornados têm levado todas as flores das amendoeiras, uma a uma.

As pessoas andam a correr de um lado para o outro, com os narizes enfiados nos telemóveis a ver as actualizações das desgraças, por enquanto materiais, causadas pela grande mãe natureza. À noite, somos informados pelos telejornais com apanhados gerais e detalhes cidade a cidade dos danos da passagem do mau tempo. Para que não percamos pitada. E nós, esquecemos o que estávamos a fazer de imediato, como quem pára na estrada para observar um acidente.

É esta atracção por ver a desgraça, este absurdo que nos faz parar tudo o que estamos a fazer para observar o caos, o incontrolável, a desordem do mundo que me faz parar para pensar esta semana. Somos seres, sem dúvida estranhos.

Este Domingo lá foram telhas, vidros, janelas, acompanhados de cortes de luz na zona de Faro. Nas ilhas barreira também, mas foi menos noticiado. Estava mau tempo, mas a destruição foi causada por mão humana, à falta de providências cautelares.

Um dia, o cansaço há de se abater sobre nós. Um cansaço de notícias, actualizações de feed e de contar desgraças. Porque tudo o que é em repetição causa habituação.

É natural que o país não se choque por o ex-primeiro ministro ir dar aulas sem se ter a certeza de que tem habilitações para tal. Assistimos impávidos. Soltamos gargalhadinhas. Estas maravilhas politiqueiras, são assim. Por regra fascinamo-nos com o caos e habituamo-nos à desgraça. Entretanto, nas árvores crescerão novas folhas e um dia destes, raiará o sol e a seguir vamos todos para a praia, quer tenhamos currículo académico, ou não, se os milhares investidos em areia pelos nossos especialistas ainda lá estiverem após a tormenta.

Selma NunesFascinioCaosHabitacao

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