Há histórias melhores que mapas

Solta-mente
Tools
Typography

Assim como acontece com alguns objectos, tão bem guardados que nunca mais nos lembramos deles, algumas memórias procedem da mesma forma.

Há uns dias explicava eu como chegar a um determinado local de alojamento a partir da rotunda de Almograve e eis que, desavisada, a memória cai sobre mim com todo o seu peso de lembrança escondida e agradável, uma coisa de há nove ou dez anos atrás, vinda sabe-se lá de onde, e, não obstante, clara como a água.

A senhora da rotunda. Estava lá no meio, de chapéu e bibe, ferramentas na mão. Chovia, mas pouco. Nós, que nessa altura não sabíamos o caminho, pedimos-lhe direcções. Perguntámos, obviamente, o que estava a fazer no meio da rotunda à chuva.

Cuidava das flores como se fosse o seu jardim pessoal desde que se reformara. Gostava que as flores da sua terrinha estivessem bem cuidadas. Acordava cedo e era o que considerava ser o seu trabalho. Pesado. Sob chuva, ou sol a sol, cerca de doze horas por dia. Podava, regava e cuidava das flores daquele jardim redondo e dos canteiros da estrada fora. E notava-se a luxuriante vaga de cores florais no horizonte até onde a nossa vista conseguia beber.

O poder da recordação foi tão grande que resolvi contar esta história. As memórias que trazemos das pequenas e grandes viagens, aquelas que ficam, perenes, não são as mil fotos que tiramos com uma máquina digital e que nunca mais nos lembramos de rever. Não! O segredo está nas histórias. As pequenas narrativas dentro das nossas histórias pessoais é que se tornam memoráveis.

Sei onde fica a rotunda, apesar de ter já cruzado mais de mil rotundas parecidas, mas, dessa, lembro-me porque sei que tem flores que são importantes para a jardineira idosa que cuida delas. E tornaram-se impressionantes para mim também nesse dia.

Nunca tinha pensado na jardinagem dentro de uma rotunda até então. Almograve tem, ou tinha uma rotunda jardinada à mão, por uma senhora que me deu direcções. É isto que temos de dizer a quem nos visita, pois é isto que não está na internet, nem nos guias, nem nos mapas online. Muitos lugares podem ter muita coisa. Aquele tem, ou tinha… flores especiais, porque se tornou pessoal.

Curiosa, fiz um google: “jardineira de Almograve”. Façam-no. Já não cuida das flores 12 horas por dia, mas ainda está por lá, felizmente. Família e amigos começaram a ralhar-lhe por ser demasiado para a idade avançada. Não fui a única a conhecer a Angelina e mais alguém escreveu sobre ela. Afinal, a memória não me pregou uma partida. Era bastante nítida, mas estava em dúvida até ir pesquisar. Consigo explicar facilmente a outros os caminhos a partir da rotunda, com ou sem flores, porque aquela é a rotunda da Angelina, a jardineira de Almograve.

Selma NunesHistorias Mapas

BLOG COMMENTS POWERED BY DISQUS