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Duvidando da beleza da Lenda

Muito chorava eu quando ouvia contar os amores de Pedro e Inês.


pedroinesTão loira e tão linda, ali  na Quinta das Lágrimas com uma chusma de freiras a trabalhar p’ra ela e o desgosto que lhe dava ver partir o amado para  ir dar cobertura a sua esposa, a seus pajens e até a sua égua (é o que dizem as más línguas porque eu não vi ).

Os leitores dirão que sou uma mulher desalmada porque me proponho denegrir uma das mais belas lendas de Portugal. Mas quando comecei a entender certas coisas da vida, esta lenda começou a cheirar-me a esturro.

Vinham as rainhas de encomenda, algumas ainda impúberes, montes acima e abaixo em carroções medonhos, e porque muitas nem a língua dos esposos sabiam falar, traziam um bando de damas de companhia, umas para as divertir, outras para lhes fazerem o penteado, outra para lhes apertar o espartilho, outra para lhes abotoar os sapatos e se não todas, mas quase, para as espiar, invejar, intrigar e muitas para as trair não só em tricas palacianas mas em acrobacias de alcova com o destinatário da encomenda i.e. o marido da ama e senhora. Tal aconteceu a D. Constança de Portugal, como a suas antecessoras e sucessoras, portuguesas e estrangeiras, uma incomensurável lista de rainhas cornudas que passaram (e passam) por este mundo. (Os leitores arreganhar-se-ão dizendo «E as cabras que enganam os seus reis??? Han??» Mas eu vou fazer de contas que eles não pensaram nada.

Portanto, D. Inês, a galega de pescoço de garça e colo de alabastro não foi nem mais nem menos do que mais uma  serva, camareira, abotoadeira, espiolhadeira  -  tudo servia aos reais machos -  que andou a abanar os caracóis (loiros em terra de mulheres  amouriscadas) nas barbas empeçadas de D. Pedro, e tal como centenas de outras camborças, teve casa posta, serviu de incubadoras a bastardinhos reais, sem que alguém muito se preocupasse com o caso, salvo as rainhas, está visto, pois ninguém gosta que lhe comam as papas na cabeça.

Mas agarraram-se a esta lenda como piolho em costura e como se na nossa terra mais ninguém tivesse sofrido de amores e não houvesse na nossa longa e rica história tantas lendas que ninguém recorda, talvez porque esta tem mais sangue do que as outras. Foi a jugular da D. Inês, os corações dos matadores que se diz terem levado dentadas do ilustre príncipe, sangrias, espadeiradas e sabe-se lá mais que vampirescas fúrias terão passado no régio miolo.
Creio contudo que a ambição de Inês não se ficava pelos apetites do real galifão e dizem os historiadores mais preclaros que ali havia política e os manos Castro e etc.

O Bravo D. Afonso também devia ter lá os seus arranjinhos entre as pedras esconsas do castelo, (todo o macho que se prezasse os tinha), portanto, não se percebe muito bem a degolação do pescoço da garça a não ser que ela servisse para acobertar algo mais perigoso para a nação do que um adultério de alcaidaria.

E há aquela cena do cemitério e da coroação dos frangalhos da defunta – só ocorrida depois da morte do Bravo –, os requintes da vingança, a brevidade com que a mágoa lhe passou (o mestre de Avis nasceu pouco tempo depois da tão amada Inês)… tudo isto me leva a perguntar aos leitores e sobretudo às leitoras, se Don Pedro seria de facto bom da cabeça e se aquele amor pela dama Galega terá de facto sido tão belo e tão puro como no-lo descrevem.

Não sei, não sabemos, mas há aqui atitudes lerdas, abstrusas e maníacas que nos levam a duvidar.

A lenda foi cantada pelos maiores e já agora, deixem que uma menor vos presenteie com catorze versos que tentam «desmascarar» o que parece ter sido uma grande mascarada:

Em sossego não estavas bela Inês
porque o desassossego era contigo
Em tua alma subtil a avidez
ao poder te avisava e não ao perigo

Não foram teus amores ao Português
a causa da ignominia do castigo
No paço já habitava a cupidez
Mas tu    querias mais do que um amigo

Em conluios alheios a teus senhores
Ser amante de um rei não te era basto
e atraíste a teu colo os matadores

Dominando em beleza linda Castro
perdeste no xadrez dos desamores
só no sepulcro houveste o régio rasto

julieta lima (poeta da Ria)

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