«Crónica de uma paixão»
Era o veleiro que te arrastava de mim em correntes que nunca me pertenceram na magia do mar. Foi sempre o mar que te afastou, o mar que te pintou de azul os olhos sempre ausentes, o mesmo mar que te traz até ao poema e do poema me leva contigo em vagas vagas ondas carneiras sobre areais que nunca vi.
Por mais que me rebele e queira correr-te da minha saudade, tu vives na linfa dos meus sonhos que de mim não te leva porque, na demência dos poetas, há ilhas onde os aventureiros decidem ficar p’ra sempre sem a hipocrisia de Penélopes.
Tão louro o teu cabelo de sóis tropicais, cortada a tua pele de sal e vento e tu tão longe. Soube sempre que dentro dos meus abraços era a linha do horizonte que imaginavas no alto do grande mastro. Quantas vezes te vi partir carregado de silêncio, quantos sóis poentes não vivi contigo, quanta lágrima nunca soubeste, quanto ciúme não viste, quanta mágoa a envelhecer em versos viciados, insuportáveis, a querer-te sempre mais.
Outro Ulisses e outro na mesma maré de um querer impossível velas novas novo o veleiro Voador computadores a bordo satélites sondas e ao sabor das velhas ondas escrevias-me cartas nem sei de onde sem uma saudade ou um beijo.
Só o mar e os teus braços ao leme.
A paz de que falavas era a que sorvias na taça da tua solidão: cicuta minha vertida dessa comunhão com o abismo.
Foram, vieram portos e mais portos. Tudo tão longe, um beijo ou outro e os afagos breves das tuas mãos como quem adormece uma criança à pressa p’ra sair devagar.
Tanto te amei calada, tanto te quis. Por fim já nem as odiava:
Calypsos que rebentassem sobre Penélopes em pedaços, rainhas, princesas : cabras inteiras ou despedaçadas … desde que voltasses na Primavera e eu te visse.
Hoje, ao descobrir-te numa foto, chorei. Chorei a minha morte na esteira de um veleiro azul, gritei aos temporais aos nevoeiros, auroras boreais, ventos, brisas, tufões……………ninguém me ouviu, e tu não soubeste nunca do meu amor maior que as regatas em que foste o primeiro.
Choro. É meu este troféu de um amor imorrível que tem o teu rosto.
julieta lima
{sharethis}









