O Crucifixo
Pessoalmente não gosto de crucifixos, naturalmente porque no meu subconsciente desperta um Cristo pregado a martelo por uma corja de brutos mas, sinceramente, parece-me que a visão do crucifixo é de somenos gravidade se a compararmos com as cenas perpetradas pelas crianças nas escolas, pelos seus parentes dentro dos lares, pelas cenas dos seus filmes preferidos (alguns de uma atrocidade assustadora ) e dos jogos de computador onde virtualmente – mas com sanha – os meninos matam, esfolam, esborracham e mais coisas que não sei porque nunca aprendi a jogar na geringonça. Voltando ao crucifixo e a qualquer outro símbolo religioso, creio que para perturbar/influenciar a conduta/crença dos nossos infantes há por aí aos pontapés elementos muito mais perniciosos do que um inócuo crucifixo, uma imagem do crescente, um buda barrigudo, um vishnu a lavar os pés, um pentagrama com velas ou até um disco voador a rondar-lhes a escola. A praga da hipocrisia é que está a perturbar as crianças, senão vejamos:
Os símbolos religiosos encalham connosco na rua, eles estão gravados nos grandes monumentos e na mais modesta capela de aldeia, nas T Shirts, nos grafites, nas tatuagens, nas paredes. A cruz, então, está na beira das estradas com luzes fluorescentes, à entrada da maior parte dos cemitérios, na maioria dos lares católicos que são muitos e não me parece que as crianças corram o «perigo» de se tornarem talibãs porque há um professor muçulmano ou porque no grafite da parede da escola há um bombista suicida.
Volta e meia vou a Dublin visitar os meus netos. Nas nossas deambulações passamos junto a uma igreja católica e lá mais à frente temos uma mesquita. Lá estão as senhoras muçulmanas de cara tapada e lá estou eu a explicar que é lá com elas e que um dia pode ser que mudem aquele costume, tal como têm mudado tantos outros.
Muitas vezes temos de nos desviar porque há uns bêbados a dormir na rua – os acólitos da seita-guiness - e pedintes, muitos pedintes, demais. E falamos de uma religião como uma modo de estar que tente compreender os que adoram o crucifixo, os que tapam a cara, os que se embebedam, os que andam com o cabelo todo enrolado dentro de um turbante, até alguns que trazem uma redinha diante do rosto, para não correrem o risco de engolir algum antepassado que agora seja mosquito.
À noite temos os telejornais a anunciar mais um grande morticínio do fundamentalismo islâmico (e toda a gente barafusta) por essa maluqueira, tenebrosa apologia da ignorância/ intolerância a espalhar-se no mundo e que já nos colocou à beira da catástrofe nuclear.
«Sim, de facto, esses gajos são doidos, mas não queremos cá crucifixos na escola do Joãozinho…»
Acaba o telejornal, a jihad anda lá longe e nós aqui só queremos banir os símbolos religiosos das escolas dos nossos meninos, esquecendo que estamos a alinhar também no extremismo, seja laico, ateu, cristão, islâmico, hindu… chamem-lhe os doutores o que quiserem. Eu digo que são tem-tens para outros fundamentalismos. É isto que queremos? Ou deveríamos mostrar às crianças uma alameda onde brilhe o crucifixo, ondeie o crescente, descanse o buda, repouse o shiva e o brahma e o menino nas palhinhas e mais um par de botas … para que eles percebam que o Olimpo onde um dia serão adultos, só será realidade, se lá tiverem assento todas as cores de homens e de credos e que o controlo na liberdade de pensamento e de culto é uma pandemia que só eles poderão combater e que deve começar nas escolas. Os pais, contudo, poderão estar a impor-lhes um inferno do qual nem imaginamos as consequências.
Um mundo sem a riqueza que há na profusão de credos e seus símbolos, será um mundo sem referências, sem hipótese de escolha, talvez o advento de outra era onde se voltem a queimar livros, relíquias, pessoas «perigosas» pelas suas ideias, mais holocaustos??
Mandem as crianças para a escola: sem cuecas, com metade das maminhas e das barrigas de fora, com as calças a baloiçar abaixo das virilhas, rego anal à mostra, perorando sobre alhos e bugalhos … Mas lá símbolos religiosos diante dos seus olhos puros… é que não…
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E se estas mães e estes pais fossem lá para aquele sítio para onde tantos filhos agora os mandam por dá cá aquela palha???
Julieta lima
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