Urso Polar
No exterior há uma pessoa vestida de brinquedo. O corpo coberto de alto a baixo por uma espécie de «babygrow» de pêlo com uma cabeça de urso. Há já muitos anos que ali passo e aceno ao urso com o mesmo ar vazio com que ele acena a todos os passantes.
E vou sempre com a pergunta a doer – o que é que faz um homem/mulher viver vestido de urso e passar dias a fio a dizer adeus a quem passa. No verão passado, ao calor do meio-dia doeu-me mais e inverti a marcha. Fui a caminho do urso no intuito de falar com ele/a, tentar saber por que preço se prestava ao suplício de passar ao dias à torreira do calor, sempre na mesma posição, sempre a acenar. Estendi-lhe a mão e o urso, meio receoso, retribuiu o cumprimento. Era mão de homem preto. No fundo do ursino capuz tinha uns olhos escuros mais tristes que uma noite sem lua. «Desculpe, posso falar consigo, passo aqui há tanto tempo… queria saber de si, se só tem este trabalho, onde vive». O urso, afinal era homem, voltou a olhar-me das profundezas de uma tristeza inexplicável e balbuciou «Nã fala português».
No outro lado, o dono da loja olhava-me meio desconfiado. Dirigi-me a ele, pedi desculpa por estar a importunar o funcionário e fiz-lhe saber do meu padecimento pelo calor desumano que aquela criatura padecia diariamente (não lhes perguntei a troco de quê nem de quanto). Muito enxuto disse-me que aquilo era muito agradável, que ele mesmo e a esposa muitas vezes vestiam o disfarce e faziam de ursos, que o «urso» era muito bem pago e muito feliz, que a roupa de pêlo era muito fresquinha e que no pino do calor até lhe davam água e lhe punham um chapéu de sol.
Atrás de nós, o urso, ora num a perna, ora na outra, acenava.
Lembrei-me de chamar a Sic mas ocorreu-me que o homem poderia estar aqui imigrado ilegalmente e que por causa das minhas manias poderia ser repatriado sei lá para onde, para se vestir sei lá de quê. Fugi dali para fora.
Hoje passei por lá de manhã. Anunciava o «Halloween», desta vez tinha uma cartola preta, uma capa e uma foice de papelão na mão esquerda. Com a direita acenava.
Acenava talvez à vida que há para lá do destino de um homem que ganha a vida feito urso, a acenar, mais nada, a acenar.
Julieta lima
30-10-2009
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