Crónica sem política dentro
Eu já fiz e fiquei assim: a escrever sem nexo e os olhos secos.
Foi logo a seguir às últimas eleições, a seguir a um candidato ter estrafegado o marido da outra candidata, depois de ver a vitória de alguns condenados e outros a ser, depois de um deputado com barba na cara ter entrado por uma porta da AR e saído pela outra, depois de. Eu sei lá, depois de.
Sentei-me num cantinho e como não era hora de dormir, pus-me a olhar a estante dos livros. Tudo política, fui pelas enciclopédias que são as maiores, pelos filósofos, pelos reis de Portugal, pelos poetas e entre o arrepio e o vómito concluo que até o manual de treino dos cães tem política dentro.
Senti-me mal, fui à cozinha beber água. Enchi o copo numa torneirinha ligada a um filtro porque no meu sítio, a 1,4 Km do hotel do Sr. Hilton, não há água da rede. A razão? A bela política da água. Como qualquer mortal fui à casa de banho e eis-me de «» com ela – a política dos esgotos. Não há sistema de esgotos aqui mesmo ao lado do sr. Hilton.
Para me deslocar, se viro na estrada em direcção aos palacetes da Quinta do Lago, verifico que uma política qualquer impediu que dali para a frente (excepto na referida Quinta, é claro,) uma coisa tão banal como uma estrada (num país que tem vivido um período maníaco em feitura de estradas), houvesse uma delas que me levasse sem sobressaltos até Almancil e por aí fora. Aqui onde eu moro é obrigatório ter um automóvel ou boas pernas para andar aos saltos porque como não há bermas, temos que saltar quando um veículo qualquer se aproxima dos nossos quadris. Uma Política que proíbe a circulação de peões!
Vou em frente. Por enquanto a política ainda me deixa entrar na Quinta do Lago sem mostrar o BI nem ser revistada de braços e pernas abertas como uma galinha na grelha. Sempre em frente, vou até à última rotunda. Lá está o Hotel só para estrangeiros ricos e portugueses da política. À sua direita vemos umas casas que ali nasceram porque a política da ria formosa devia ter andado a banhos noutras rias quando a digmª. política autárquica local as aprovou.
Por cima da praia da Julia’s há o Vale do Lobo II. A política, (coitada, não é de ferro!), não conseguiu impedir que se erguesse sobre a areia mais um aldeamento dunar. A política de preços para aquelas «cabanas» é para cima de dois mil euros por dia.
Fugi dali para fora, apetecia-me ir a Faro mas a política nunca resolveu a 125 e voltei para casa. Sentei-me num pedacinho de terra que tenho no meio dos pinheiros. Vejo o meu caminho cortado pelo portão de uma offshore. ? . A política permitiu que eu não saiba quem são os meus vizinhos e para reaver o meu direito a usar o trilho tenho de contratar um advogado e o meu advogado agora anda na política e não quer saber de mim para nada.
Se calhar mato-me, não estou para aturar isto.
Estendo-me sobre as ervas, os meus olhos encalham no céu azul do Verão de San Martinho e, de repente, saio da caricatura de mim, ergo-me acima dos buracos da minha estrada, do nanismo das minhas tragédias e aterro sem esperança em todas as caricaturas do mundo, em todos os caminhos por onde correm todos os refugiados que a POLÍTICA enxota para lado nenhum. Fantasmas grandes e pequenos expulsos dos seus cemitérios com os ossos à mostra, cidades destruídas, estilhaços de bombas a esfacelar meninos, velhos quase podres, humanos bestializados porque convém. Diante deles, atrás deles, a seu lado está ela. Invisível, omnipotente e omnipresente, incontrolável, inexplicável e mais surda que Deus.
Nasça um filósofo que a defina e prove que a política não é a mutação incontrolável de uma lepra mental que foi, é, e será a mãe de todos os holocaustos?
Dou graças ao santo padroeiro dos ateus pelos meus dissabores e abraço-me ao sol, beijo-lhe as bochechas redondas e adormeço a sonhar que – um dia, daqui a muitos milhares de anos – surgirá uma vacina que os humanos recebam à nascença e os impeça de serem contaminados pelo vírus maldito - da política.
Foi logo a seguir às últimas eleições, a seguir a um candidato ter estrafegado o marido da outra candidata, depois de ver a vitória de alguns condenados e outros a ser, depois de um deputado com barba na cara ter entrado por uma porta da AR e saído pela outra, depois de. Eu sei lá, depois de.
Sentei-me num cantinho e como não era hora de dormir, pus-me a olhar a estante dos livros. Tudo política, fui pelas enciclopédias que são as maiores, pelos filósofos, pelos reis de Portugal, pelos poetas e entre o arrepio e o vómito concluo que até o manual de treino dos cães tem política dentro.
Senti-me mal, fui à cozinha beber água. Enchi o copo numa torneirinha ligada a um filtro porque no meu sítio, a 1,4 Km do hotel do Sr. Hilton, não há água da rede. A razão? A bela política da água. Como qualquer mortal fui à casa de banho e eis-me de «» com ela – a política dos esgotos. Não há sistema de esgotos aqui mesmo ao lado do sr. Hilton.
Para me deslocar, se viro na estrada em direcção aos palacetes da Quinta do Lago, verifico que uma política qualquer impediu que dali para a frente (excepto na referida Quinta, é claro,) uma coisa tão banal como uma estrada (num país que tem vivido um período maníaco em feitura de estradas), houvesse uma delas que me levasse sem sobressaltos até Almancil e por aí fora. Aqui onde eu moro é obrigatório ter um automóvel ou boas pernas para andar aos saltos porque como não há bermas, temos que saltar quando um veículo qualquer se aproxima dos nossos quadris. Uma Política que proíbe a circulação de peões!
Vou em frente. Por enquanto a política ainda me deixa entrar na Quinta do Lago sem mostrar o BI nem ser revistada de braços e pernas abertas como uma galinha na grelha. Sempre em frente, vou até à última rotunda. Lá está o Hotel só para estrangeiros ricos e portugueses da política. À sua direita vemos umas casas que ali nasceram porque a política da ria formosa devia ter andado a banhos noutras rias quando a digmª. política autárquica local as aprovou.
Por cima da praia da Julia’s há o Vale do Lobo II. A política, (coitada, não é de ferro!), não conseguiu impedir que se erguesse sobre a areia mais um aldeamento dunar. A política de preços para aquelas «cabanas» é para cima de dois mil euros por dia.
Fugi dali para fora, apetecia-me ir a Faro mas a política nunca resolveu a 125 e voltei para casa. Sentei-me num pedacinho de terra que tenho no meio dos pinheiros. Vejo o meu caminho cortado pelo portão de uma offshore. ? . A política permitiu que eu não saiba quem são os meus vizinhos e para reaver o meu direito a usar o trilho tenho de contratar um advogado e o meu advogado agora anda na política e não quer saber de mim para nada.
Se calhar mato-me, não estou para aturar isto.
Estendo-me sobre as ervas, os meus olhos encalham no céu azul do Verão de San Martinho e, de repente, saio da caricatura de mim, ergo-me acima dos buracos da minha estrada, do nanismo das minhas tragédias e aterro sem esperança em todas as caricaturas do mundo, em todos os caminhos por onde correm todos os refugiados que a POLÍTICA enxota para lado nenhum. Fantasmas grandes e pequenos expulsos dos seus cemitérios com os ossos à mostra, cidades destruídas, estilhaços de bombas a esfacelar meninos, velhos quase podres, humanos bestializados porque convém. Diante deles, atrás deles, a seu lado está ela. Invisível, omnipotente e omnipresente, incontrolável, inexplicável e mais surda que Deus.
Nasça um filósofo que a defina e prove que a política não é a mutação incontrolável de uma lepra mental que foi, é, e será a mãe de todos os holocaustos?
Dou graças ao santo padroeiro dos ateus pelos meus dissabores e abraço-me ao sol, beijo-lhe as bochechas redondas e adormeço a sonhar que – um dia, daqui a muitos milhares de anos – surgirá uma vacina que os humanos recebam à nascença e os impeça de serem contaminados pelo vírus maldito - da política.
julieta lima
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