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Os novos bancários

Há muito tempo que não entrava num banco.

A Santa net faz com que se veja muita asneira mas também evita que uma pessoa frequente certos ambientes – cada vez mais inquinados – como os Bancos.

E tive que lá ir. Abotoei nas bochechas o ar confiante que já perdi, a graça que nunca tive e num agachamento intelectual sem precedentes lá expliquei que precisava de uns euros para comprar umas telhas e uns paus.
O «banqueiro» que me atendeu vestia de escuro e apesar do ar imberbe, revelava já uma expressão não sei se de superioridade, se de aprendiz de besta.

Um ucraniano ou romeno entrou pelo gabinete, i.e. um quadrado de pladur enfeitado com uma fadista e um velho vaidoso atrás de uns posters envidraçados.

Ah leitores, havíeis de ter visto a cara do jovem iupy.
« Senhor, ê só precise de uma enfermação».
«Não vês que estou ocupado? Espera aí fora!» e atirou ao imigrante um par de olhos de lava em chispas que quase reduziram o homem a cinza. Espero que os leitores tenham notado que imigrante com fato de trabalho se trata por tu! É escusado dizer que se fosse um inglês a interromper o cavalheiro, o traseiro gordo lhe teria saltado da cadeira para as mesuras e quem sabe se não iria eu de rota batida juntar-me ao ucraniano na espera de corredor para dar o assento ao bife. Mas isto é «supor» meu, de mulher maldizente.
Graças a Deus que não chegou nenhum inglês.

O rapazola continuou a dedilhar o seu PC e descobre então que tenho o nome na lista dos caloteiros do Banco de Portugal porque estou a dever € 8,00 (sim, oito euros, acht euros, huit euros) a esta merdosa instituição de que sou cliente há 40 anos. Descobri mais tarde que estes eight euros eram juros comissões e alcavalas de uns outros 16 euros que eles me tinham roubado – repito – roubado, porque os debitaram, sem meu conhecimento, como despesas numa conta saldada. Os leitores não percebem? Não vale a pena puxarem pelas vossas digníssimas cabeças porque eu também não percebi.

Bem, daí a pouco um funcionário menos importante aproximou-se do cubículo «Doutor, dá-me licença?» Tirou duma estante um papel qualquer e murmurou reverente «É para a Dra. ...» Entretanto, dirigiu-se a uma mocita de cabelo oleoso que estava na caixa «Ó doutora X…telefone aí ao Dr…. »

Comecei a sentir tonturas e calores no corpo todo. Como ando muito confusa com as agruras da menopausa, ainda pensei ter eu entrado no Centro de Saúde em vez do Banco. É que foi o doutor, foi a doutora, sim ó doutor ali o doutor vá ali à doutora.

Tirei da mala a garrafinha da água.
Fechei os olhos. Tentei situar-me: Na Clínica Veterinária não estou porque ali há humanidade e os doutores são chamados pelos nomes e conhecem os clientes e tratam-nos com todo o carinho e até lhes fazem festas nas orelhas. Ah…, bebi um gole de água, devo ter sido atropelada e estou nas Urgências do Hospital de Faro… e dizem que não há médicos, aqui neste cubículo já vi três ou quatro. E estão tão mal encarados. Porque será? Muitos desastres, certamente. Muita violência doméstica. E nem usam bata, coitados.

O dr. moçoilo acordou-me daquela espécie de coma dizendo «Vamos ver se consigo que lhe aprovem isto. Mas tenho que lhe limpar o nome primeiro». 

Julieta Lima
 
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