A Maria naquela noite não pregou olho...
Ah... essas marafadas que andaram na fábrica do peixe, reinadias e sempre dispostas a contar umas às outras as coisas divertidas que lhes acontecia e depois riam-se depravadamente como se para ganharem ainda mais coragem de enfrentar a vida dura desses tempos.
A Tia Bia dizia-lhe:
- Lembras-te Maria naquele Natal em que os teus pastéis de batata doce abriam todos e tu com iras amandastos pelo postigo afora. De manhã quando massomei à rua andavam os cães a comê-los e...
A Rosa meteu-se na conversa:
- Ó mã... iste hoje tá atechade de gente. Anda lá balar Maria!
A Belinha Cotovia achegou-se à Maria a fingir segredar e gritava ainda mais alto do que a musica:
- Maria... já tenho bisneto. O marafado do meu neto foi enganado daquela escramalha brasas e agora a minha filha é que tem de sestentar aquela gente toda.
A Maria ouvia e sorria... seus olhos vagueavam pelos dançarinos... tinha mesmo vontade de dar um pézinho de dança!
Mas sua artrose já não lhe permitia, tinha perdido a agilidade do antigamente.
Derrepente pareceu-lhe ver uma cara conhecida e pensou:
- Aquele moço deve ser o Felisbelo... olha como o danado ainda se mexe bem e aquela cadavérica que tá com ele será a mulher dele...?
O Belinho (diminutivo de Felisbelo) tinha sido a grande paixão da Maria.
Agora recordando ela revivia aquele primeiro beijo roubado à socapa no baile da eira lá no monte onde a Maria tinha vindo ao Mundo.
O beijo tinha sido intenso e profundo... mas a Maria casou com o Manel e o Felisbelo casou com a Isabel.
- O Manel e a Isabel já morreram.
- A Maria e o Felisbelo são viúvos.
- E ao fim de meio século a paixão entre eles renasce.
Continua...
Filó









